Comentando a aplicabilidade da Ciência com Sergio Chermont

COMENTANDO A APLICABILIDADE DA CIÊNCIA…

Sergio S.M.C. Chermont

Sergio S.M.C. Chermont - Mestre e Doutor em Ciências Cardiovasculares Coordenador do serviço de Fisioterapia do Hospital Santa Martha

A Insuficiência cardíaca (IC) é uma síndrome clínica complexa multifatorial na qual o coração é incapaz de bombear sangue para atender às necessidades metabólicas do organismo, ou pode fazê-lo somente com elevadas pressões de enchimento. Essa síndrome pode ser considerada como uma via avançada das doenças cardiovasculares. Tem como sinais e sintomas típicos, a fadiga, o edema de membros inferiores e a dispneia (falta de ar) tanto no esforço como em repouso. 1

O termo “insuficiência cardíaca crônica” reflete a natureza progressiva e persistente da doença, enquanto o termo “insuficiência cardíaca aguda” fica reservado para alterações rápidas ou graduais de sinais e sintomas sendo necessária a busca por atendimento de urgência. Tem crescente incidência, prevalência e alta morbimortalidade associadas e pode ser estimada como a principal causa cardiovascular de internação em indivíduos acima de 60 anos.

Diversas evidências demonstraram que a fraqueza dos músculos inspiratórios é um dos fatores que determinam mal prognostico e baixa tolerância ao exercício nos pacientes com IC.2,3 Por sua vez, nas últimas décadas, a Fisioterapia Cardiorrespiratória ganhou destaque fundamentada em estudos que evidenciaram que o treinamento muscular respiratório (TMR) é capaz de proporcionar inúmeros benefícios tais como melhora na captação do oxigênio,  na capacidade funcional e na qualidade de vida para os pacientes com IC. 4.

O Fisioterapeuta através do treinamento muscular inspiratório (TMI) por sua fácil aplicabilidade, pode prover potenciais benefícios ao paciente, tais como melhora da dispneia e fadiga assim como da tolerância ao exercício, além melhorar o consumo máximo de oxigênio (VO2máx) e a distância percorrida em testes de caminhada de 6 minutos. 5

O TMI, deve, portanto, ser parte integrante das ferramentas terapêuticas do Fisioterapeuta, nos cuidados dispensados aos pacientes com IC sempre que possível.

Recentemente, foi publicado no periódico Arquivos Brasileiros de Cardiologia, um artigo original com um protocolo randomizado e controlado13 que avaliou as implicações de uma sessão de diferentes cargas de TMI (30 e 60%) sobre a resposta hemodinâmica central (RHC) em indivíduos com IC, usando um método não invasivo de monitorização. Ocorreram significantes mudanças circulatórias no grupo que usou a maior carga. Estes achados não devem ser ignorados, uma vez que os pacientes com IC apresentam a distribuição do fluxo sanguíneo para os músculos em atividade e a capacidade vasodilatadora periféricas prejudicados. Estas alterações são deletérias e podem causar piora da tolerância ao esforço. 6

A constatação de que existe uma resposta cardiovascular central com maiores cargas de treinamento, porém sem pôr em risco a segurança do paciente, torna-se útil para a prescrição do TMI com segurança pelo Fisioterapeuta

Portanto o artigo de Marchese e col. confirma que o tratamento seguro através da Fisioterapia Cardiorrespiratória utilizando entre outros recursos o TMI, torna-se indispensável como adjuvante às medidas não-farmacológicas e ao tratamento medicamentoso tão importantes em prevenir descompensações ou reinternações de paciente com IC.

Referencias:

1. Comitê Coordenador da Diretriz de Insuficiência Cardíaca. Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda. Arq Bras Cardiol. 2018; 111(3):436-539

2. McParland C, Resch EF, Krishnan B, Wang Y, Cujec B, Gallagher CG. Inspiratory muscle weakness in chronic heart failure: role of nutrition and electrolyte status and systemic myopathy. Am J Respir Crit Care Med. 1995;151(4):1101-7.

3. Verissimo P, Casalaspo TJ, Gonçalves LH, Yang AS, Eid RC, Timenetsky KT. High prevalence of respiratory muscle weakness in hospitalized acute heart failure elderly patients. PLoS One. 2015;10(2):e0118218.

4. Smart NA, Giallauria F, Dieberg G. Efficacy of inspiratory muscle training in chronic heart failure patients: a systematic review and meta-analysis. Int J Cardiol. 2013;167(4):1502-7.

5. Gomes Neto M, Ferrari F, Helal L, Lopes AA, Carvalho VO, Stein R. The impact of high-intensity inspiratory muscle training on exercise capacity and inspiratory muscle strength in heart failure with reduced ejection fraction: a systematic review and meta-analysis. Clin Rehabil. 2018;32(11):1482-92.

6- Marchese LD, Chermont S, Warol D, et al. Controlled Study of Central Hemodynamic Changes in Inspiratory Exercise with Different Loads in Heart Failure Arq. Bras. Cardiol. 2020;114(4):656-63

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